A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 110
Aportes para pensar a democraciaa partir de Jonas e Levinas
soalidade e a neutralidade do ser, o ser sem o ente, um estado de
anonimato. A hipóstase designa o momento em que o sujeito se
afirma contra uma existência impessoal e anônima, ganhando
um corpo (o da do Dasein heideggeriano). Duas experiências do
corpo descrevem-no em sua condição de passividade: a lassidão
e a fadiga, sendo ambas um tipo de recuo ou hesitação diante da
existência, um medo de existir. Este sujeito corporal afetado pela
matéria ou pelo il y a aponta para a constituição de um sujeito
separado da totalidade, ainda se constituindo num estágio pré-
-reflexivo. É como corpo que ele se constitui como lugar capaz
de acolher o outro. É num esforço de se libertar da solidão da
existência que ele procura outrem. Eros e fecundidade se ofere-
cem então como meios de efetuar uma tal libertação de si mesmo
ou do peso de uma existência fechada em si mesma. O modo
de o corpo experimentar o mundo é a fruição através da qual
a ipseidade vai se distinguindo do mundo de que ela frui. Em
Totalidade e Infinito, os termos “separação e elemental” tomam
o lugar de hipóstase e il y a cuja função é permitir a contração
em si do sujeito. A vida aqui se resume a um fruir em que não há
ainda representação, mas os conteúdos da vida são meros atos de
viver ou um egoísmo de viver. Esse estado inicial da vida descrito
como felicidade é um tipo de intencionalidade sensível anterior à
intencionalidade husserliana da representação, uma encarnação
mesma da consciência (Levinas, 1997, p. 170). Eis o estado ético
de uma existência sensível que precede o do ser, da liberdade e
da consciência e que permitem a Levinas sair do totalitarismo
ontológico.
Buscando o solo que funda a estrutura objetivo-ontológica
e que a antecede, Levinas se detém no modo da relação corporal
com o mundo para aí encontrar uma socialidade que é primor-
dial e que está além da ontologia que somente vê a socialidade
sob a forma da luta e da guerra. A redução fenomenológica, tal
como usada por Levinas, leva a um campo social em que a rela-
ção com outrem quebra a totalidade. Essa separação intersub-
jetiva instaura uma diferença não totalizável e não sintetizável,
uma relação a uma alteridade irredutível e por isso mesmo abre
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