A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 105

Aportes para pensar a democraciaa partir de Jonas e Levinas Quanto ao tipo de coisas a que se deve renunciar sem deixar de ser plenamente humano, Jonas inclui como uma das renún- cias prementes a questão da liberdade. 2 Aproxima-se assim de Levinas que entende a liberdade como problemática ou ao menos ambígua. Os modernos se deram uma liberdade sem limites que agora se torna problemática diante da pobreza extrema de uma grande parte do mundo em desenvolvimento que ele reputa à superpopulação que o Estado deveria então controlar, tomando medidas que provocam ingerências na vida privada dos cida- dãos. Jonas admite, entretanto, o dever de preservar a liberdade como um bem ao qual não se pode renunciar totalmente, mas de uma forma responsável. Em outros textos, Jonas parece aludir à preferência justifi- cada por uma tirania “benfeitora” do que ao aniquilamento físi- co da humanidade, pois de que serviria uma liberdade na impos- sibilidade de existirem homens livres? Mas poderia, se pergunta Schoefs, ser autenticamente humana uma vida sob um governo tirânico? (Schoefs, 2009, p. 96). Jonas não coloca em questão “a capacidade ontológica de liberdade”, mas um governo tirânico que impeça a devastação do meio ambiente deve também pre- servar a possibilidade da liberdade em seu seio. Uma democracia tende a seguir a vontade da população e por isso não estaria em condições de considerar os interesses do futuro que exigiria a imposição de uma forte disciplina, através de medidas impopu- lares e antipáticas. Uma solução apontada é a mistificação das massas (Jonas, 2006, p. 247) que, no entanto, soa cínica e imoral mas que, mesmo assim, ele julga preferível à perda total de liber- dade (Schoefs, 2009, p. 96-97). Como então pensar um regime político que não sacrifique a liberdade já que Jonas admite que ela é um valor moral inestimá- vel? Um regime despótico também pode resultar em corrupção e desmoralização. Como então se proteger contra seus próprios excessos? Também os regimes democráticos devem então se pre- 2 O tema da liberdade aparece pouco em O Princípio Responsabilidade, sendo melhor abordado em Une éthique pour la nature, já esgotado, de onde a autora o cita. 104 de 244