editor de Cinearte, prestigiada revista de cinema. Gonzaga criticara o excesso de letreiros da fita anterior de Mauro, que a partir daí passa a“ falar por imagens”, essência da linguagem cinematográfica – e como o cinema mudo se fazia entender. Mauro já demonstrava rara inventividade: na sequência de uma tempestade, feita com chuva de regador, os raios são riscados na película virgem. Nas cenas de um galope, o close das patas dos cavalos é feito com uma lata de farinha pintada de preto por dentro. Duas lentes, uma de foco longo outra comum. E Mauro inventa assim uma espécie de teleobjetiva. Impulsionado pelo frescor da iniciação, Thesouro Perdido já é verdadeiramente uma fita de cinema – e recebe o Troféu Cinearte como Melhor Filme Brasileiro de 1927. Humberto Mauro passa a ficar falado como homem de cinema. Por enquanto, do cinema mudo.
Em meados de 1927, a Phebo Sul America abre-se a acionistas, passa a denominar-se Phebo Brasil Filme, e elege seu presidente Agenor Cortes de Barros, tendo como secretário Homero Cortes Domingues. O diretor técnico é Humberto Mauro, o único assalariado – e primeiro cineasta a ter carteira assinada no Brasil. Terceira produção do Ciclo de Cataguases, Braza Dormida já representa um princípio de profissionalização. São contratados no Rio não só o fotógrafo – Edgar Brasil, que logo seria o melhor iluminador do cinema brasileiro – como o casal protagonista, Nita Ney e Luiz Soroa.“ De qualquer maneira precisas apresentar agora um filme mais bilheteria. Não são beijos nem farras, mas um sensualismo elegante. Todo filme deve ter uma boa dose pelo menos de mocidade”, dizia Adhemar Gonzaga, em 1929, quando Mauro começava a elaborar seu novo roteiro.
Quarta e última produção da Phebo, com externas realizadas no Rio e em Belo Horizonte, Sangue Mineiro já mostra um Humberto Mauro senhor de si – e sua evolução de um filme para outro é precisa, rápida, surpreendente. A fita foi viabilizada pela participação de Carmen Santos – como protagonista e principalmente coprodutora. Esta foi a estreia dela como estrela: apesar de ter feito outros três filmes no Rio, seus fãs – como os de Eva Nil – só a conheciam de fotografia. Sua entrada na Phebo significou prestígio e injeção de capital, mas não o suficiente para a produtora continuar em atividade. A atriz portuguesa vai ter grande importância na trajetória de Humberto Mauro em sua fase carioca.
Com o fim da Phebo, Mauro vai para o Rio a convite de Gonzaga, que acabara de fundar sua produtora, a Cinédia. Com pouco mais de 30 anos, e revelando-se nas várias funções assumidas dentro
Humberto Mauro: plano geral & poesia
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