cito até o aeroporto Atatürk, de Istambul, que estava cercado
pelos golpistas. Conseguiu pousar no escuro, pouco depois de
meia noite, e consta que usou o celular da repórter da CNN-Türk
para se dirigir televisivo à população. Por ordem sua, um
chamado à prece foi feito dos milhares de minaretes, pouco
depois de uma hora da manhã.
Multidões atenderam ao apelo da madrugada do domingo e
tomaram as ruas nas maiores cidades do país para enfrentar o
golpe. Duzentos e quarenta e nove pessoas morreram nessa noite.
Muitas das vítimas morreram na ponte sobre o Bósforo, que os
golpistas haviam bloqueado e de onde abriram fogo sobre os civis
desarmados que haviam atendido ao chamado do presidente
Erdogan e das mesquitas.
Em poucas horas estava vencido o motim dos soldados.
A reação fora mais ampla que apenas a de turcos religiosos: todos
os partidos, ONGs, jornais e comentaristas se manifestaram
contra o golpe ainda enquanto ele se desenrolava.
Pouco depois de sobreviver à tentativa de golpe, Erdogan
agradeceu esse “presente de Deus” que inauguraria uma “nova
Turquia”. Desde o início, as autoridades turcas atribuíram o
golpe fracassado a Fethullah Gülen, um clérigo que vive nos
Estados Unidos, no estado da Pensilvânia, e lidera o movimento
Hizmet (serviço, em turco), uma rede mundial de escolas e insti-
tuições assistenciais.
Os “gulenistas”, que se apresentam como muçulmanos mode-
rados, são vistos na Turquia como uma organização subversiva
apoiada por governos ocidentais, com o objetivo de infiltrar o
Estado turco, ou ao menos é assim que Erdogan e seus aliados os
retratam. Gülen não só nega qualquer participação no fracassado
golpe como o chamou de “putsh abjeto”, e os Estados Unidos
alegam falta de evidência para justificar sua extradição, conforme
pede o governo turco.
A exaltada linguagem louvando “a epopeia de 15 de julho”
contra “os inimigos da democracia e do povo turcos” e o esforço
dedicado a garantir a presença de multidões na comemoração
(incluído transporte público gratuito, estandes de bebida e comida
de graça, e indução para o funcionalismo público) servem ao obje-
tivo de canalizar mais poder para a Presidência. Como escreveu a
jornalista Hala Kodmani, no Libération, o exagero da comemora-
ção só é comparável à amplitude da repressão.
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Helga Hoffmann