A crise não parece ter fim PD48 | Page 136

cito até o aeroporto Atatürk, de Istambul, que estava cercado pelos golpistas. Conseguiu pousar no escuro, pouco depois de meia noite, e consta que usou o celular da repórter da CNN-Türk para se dirigir televisivo à população. Por ordem sua, um chamado à prece foi feito dos milhares de minaretes, pouco depois de uma hora da manhã. Multidões atenderam ao apelo da madrugada do domingo e tomaram as ruas nas maiores cidades do país para enfrentar o golpe. Duzentos e quarenta e nove pessoas morreram nessa noite. Muitas das vítimas morreram na ponte sobre o Bósforo, que os golpistas haviam bloqueado e de onde abriram fogo sobre os civis desarmados que haviam atendido ao chamado do presidente Erdogan e das mesquitas. Em poucas horas estava vencido o motim dos soldados. A reação fora mais ampla que apenas a de turcos religiosos: todos os partidos, ONGs, jornais e comentaristas se manifestaram contra o golpe ainda enquanto ele se desenrolava. Pouco depois de sobreviver à tentativa de golpe, Erdogan agradeceu esse “presente de Deus” que inauguraria uma “nova Turquia”. Desde o início, as autoridades turcas atribuíram o golpe fracassado a Fethullah Gülen, um clérigo que vive nos Estados Unidos, no estado da Pensilvânia, e lidera o movimento Hizmet (serviço, em turco), uma rede mundial de escolas e insti- tuições assistenciais. Os “gulenistas”, que se apresentam como muçulmanos mode- rados, são vistos na Turquia como uma organização subversiva apoiada por governos ocidentais, com o objetivo de infiltrar o Estado turco, ou ao menos é assim que Erdogan e seus aliados os retratam. Gülen não só nega qualquer participação no fracassado golpe como o chamou de “putsh abjeto”, e os Estados Unidos alegam falta de evidência para justificar sua extradição, conforme pede o governo turco. A exaltada linguagem louvando “a epopeia de 15 de julho” contra “os inimigos da democracia e do povo turcos” e o esforço dedicado a garantir a presença de multidões na comemoração (incluído transporte público gratuito, estandes de bebida e comida de graça, e indução para o funcionalismo público) servem ao obje- tivo de canalizar mais poder para a Presidência. Como escreveu a jornalista Hala Kodmani, no Libération, o exagero da comemora- ção só é comparável à amplitude da repressão. 134 Helga Hoffmann