1964 As armas da política e a ilusão armada | Page 313

gado a buscar outras alternativas de intercâmbio comercial, no caso os países do chamado Terceiro Mundo. Então, o governo brasileiro que, em certo momento, chegou a oferecer auxílio para a manutenção do império colonial português, foi o primeiro do mundo a reconhecer a independência e o governo do MPLA, de Angola. Isso não aconteceu por acaso. Foi fruto exatamente das mudanças na economia mundial. Havia uma certa lógica nessas mudanças, um entrelaçamento de fatores que convergiam, a partir da primeira metade dos anos 70, no sentido da democracia. A situação política do país não poderia manter-se estagnada, e o regime se deu conta disso. Seus ideólogos fizeram, então, um plano objetivando controlar esse processo, para manter sua hegemonia. Mas o plano fracassou, pois o povo interferiu nele de forma completamente distinta da imaginada pelos estrategistas palacianos. A presença popular surgiu como fator novo, e a partir de então, fator que não mais poderia ser desprezado ou eliminado. De qualquer forma, em 1974/1975, a repressão chegara ao ponto de isolar a direção do conjunto do PCB. Nessas condições, pouca diferença fazia estarmos no Brasil ou no exterior. Creio mesmo que a transferência para o exterior veio tardiamente. A clandestinidade era tão opressiva que, a menos que fôssemos levianos, era mínimo o nível de atividades possíveis para a direção, aqui no país. Vocês não podem imaginar as dificuldades que tínhamos para organizar um encontro de dirigentes com um grau aceitável de segurança. Sofremos golpes seríssimos, talvez os mais graves da nossa história: dirigentes presos, assassinados, “desaparecidos”; centenas de militantes presos e torturados; milhares de militantes perseguidos; uma estrutura clandestina profundamente lesionada. Um saldo terrível. É preciso dizer, todavia, que se erramos – e erramos mesmo – não foram os nossos erros o fator determinante. Pode parecer meio acaciano fazer esta ressalva, mas não é: a luta de classes é uma guerra, e as pessoas, frequentemente, se esquecem que o O Golpe de 1964 e aspectos da política brasileira 311