homem, conforme estabelecia o ideário marxista. E sem uma base
material nova, não existe modo de produção historicamente novo.
É o que a marcha da História nos ensina.
O fato é que a antiga URSS fez uma revolução política mas
herdou a base material por excelência do sistema capitalista – a
unidade fabril. E não criou nada no lugar dela. E o mais dramá-
tico ainda estaria por vir: a base material da sociedade sem clas-
ses – representada pela revolução técnico-científica em curso no
mundo há pelo menos três décadas, com base na automação –
surgiria primeiro no Ocidente capitalista. A base técnica dessa
sociedade, bem entendido – e não a sua base social e política. É
como se a Revolução Russa de 1917 tivesse colocado a política na
frente da economia (ou das forças produtivas, mais concreta-
mente) e o Ocidente tivesse feito justamente o contrário disso.
Seja como for, a União Soviética não somente deixaria de
modificar essa base material (o capitalismo, diga-se de passagem,
mudou a base do feudalismo, o que possibilitou explodir de fato
com as relações servis de produção, reforçando assim o próprio
capitalismo) como também manteria as relações assalariadas de
produção já presentes no capitalismo. E o que é ainda mais sinto-
mático, o capital permaneceria intocado também no interior do
socialismo real. A pergunta parecia ser: o que fazer com ele?
O que o socialismo real modificaria estruturalmente, então?
Na verdade, apenas o estatuto formal dos meios de produção,
doravant e sob o controle do Estado, não necessariamente sociali-
zado. É preciso reconhecer isso. Não é demérito. É que não havia
condições de se caminhar mais longe do que isso, dadas as condi-
ções da sua implantação. No fundo, os bolcheviques contavam
com o pipocar da revolução na Alemanha, área mais avançada,
para viabilizar de fato a Revolução Russa. Tanto que o idioma
oficial da III Internacional, criada em 1919, era o alemão.
Problemas fundamentais que têm que ver com o caráter da
gestão, tão ou mais importantes até do que o próprio estatuto da
propriedade, foram praticamente postos de lado. Afinal, se apro-
priar dos meios de produção é inseparável de se apropriar dos
meios de gestão – ou deveria ser. Pior ainda: a ideia de socialismo
se restringia à esfera econômica, mais concretamente às naciona-
lizações operadas no âmbito da indústria. Vale destacar ainda
que o próprio Karl Marx evitava se referir ao termo socialismo:
para o filósofo e ativista alemão o que havia, na realidade, eram
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Ivan Alves Filho