100 anos da Revolução Russa PD_ESPECIAL | 页面 50

igualdade que aqui, nos países socialistas, foi feito. Ou se tem tecnologia para todos ou se tem pobreza multiplicada: vamos ver qual sistema político resolve melhor essa contradição.
O professor Ziembinski, da Academia de Ciências de Berlim, pediu a palavra e, do alto dos seus 70 anos, disse:
– Marx previu o socialismo como uma formação que só poderia surgir depois que o capitalismo tivesse esgotado seus potenciais, mas eles não se esgotaram. Ele queria a revolução mais para aumentar a produção. Não se queimam etapas na história. Lamento, a revolução soviética foi um aborto histórico. Com exceção da nossa Alemanha e da Tchecoslováquia, isso que se chama de comunismo não se instalou nos países industrializados e se tornou antes uma socialização da miséria, com uma filosofia miserável. Queimar etapas supõe um caminho necessário, ditado por um deus. Não há como negar os avanços socialistas na educação, saúde, igualdade, até na produtividade. Com as reformas certas, na hora certa, teria sido possível retomar o crescimento sem perder os avanços. Agora é tarde.
Mário lembrou-se de uma assertiva do seu pai, de que o Brasil nunca se tornaria comunista, porque isso exigia disciplina demais. Como saber o que poderia acontecer? Se o básico fosse não imitar modelos de fora, mas isso era conversa para boi dormir. Os erros teóricos, as tragédias práticas e a tendência inerente ao capital – ele teve de bocejar, precisava de um café – faziam a diferença entre ricos e pobres ir aumentando, e ela iria aumentar ainda mais se o comunismo fosse varrido. O planeta sempre tinha estado dividido entre poucas culturas mais avançadas e muitas atrasadas. A dívida externa, o valor da moeda, a divisão internacional do trabalho, tudo fazia continentes inteiros, como África e América Central e do Sul, se tornarem os proletários do mundo. A luta pela valorização do trabalho era uma luta de libertação nacional. No socialismo real, prateleiras vazias; nesses continentes, barrigas vazias.
Um peruano pediu a palavra, para dizer que era preciso entender a dupla tragédia da esquerda latino-americana: ela podia ter tido propostas e práticas erradas, mas os problemas continuavam reais; ela era antes massacrada pelas boas intenções do que por enganos teóricos. A CIA e a direita de cada país tinham provocado o reforço das estruturas autoritárias nas organizações de esquerda e impedido que tivessem uma ação mais esclarecida e adequada à realidade.
48 Flávio R. Kothe