árvores disputam luz, animais maiores comem os menores e todos são comidos pelos bem pequenos. Sendo a história da“ civilização”, o relato da existência de uma espécie de animal, não é de se admirar que ela seja feita de conflitos que não cessam nunca. Embora Marx assumisse a história como luta de classes, queria que ela deixasse de ser luta, para que afinal aflorasse o anjo escondido em cada homem. O marxismo é uma teologia cristã, salvacionista. Faz parte da história do platonismo. Ignora isso, quando se proclama materialista.
No socialismo de Estado, quem quisesse fazer da existência a busca do luxo estaria no lugar errado. Não havia necessidade de se exibir como melhor por ser mais rico. No capitalismo, sempre se paga mais pelas mercadorias do que custou produzi-las. No socialismo de Estado, os preços eram estranhos: ou baratos demais, ou caros demais. Aquilo que se supunha seria do consumo do trabalhador( inglês, na época de Marx) era vendido abaixo do custo de produção; o que fosse considerado luxo era muito mais caro no mundo socialista do que no capitalista. O sistema todo era artificial, com os preços ditados por um comitê central. O problema é que um televisor, um telefone ou um carro se tornaram propriedades comuns para o trabalhador no capitalismo avançado, mas não eram para o trabalhador que estava a caminho, e de pé no chão, do paraíso socialista.
Na aparência do sistema, todos tinham emprego, mesmo que fosse para fingir que trabalhavam. A velocidade da caravana é, porém, a do camelo mais lento, a não ser que ele seja comido. Se todos tinham direito a emprego, se o diretor da empresa precisava arranjar novo emprego para os funcionários mais relapsos antes de mandá-los embora – e eles tinham pouca demanda –, acabava havendo uma acomodação geral que corroía a produtividade. Depois de anos iniciais de entusiasmo, todos acabavam produzindo tanto quanto quem menos produzia. Os salários eram muito parecidos, não fazia diferença ficar se matando no serviço. Quem produzia mais tinha de esconder que produzia, se tornava inimigo dos colegas. Garçons não queriam fregueses, pois davam trabalho.
O sistema de produção, dominado por um partido que não admitia alternância – incapaz, portanto, de se reformar –, faliu por dentro. O que pretendia ser revolucionário se tornou tão reacionário que foi incapaz de fazer sequer as reformas que o salvassem. Não apenas cidadãos comuns, mas muitos membros do Partido alertaram sobre a necessidade de reformas, mas a
Utopia e realidade no socialismo de Estado
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