100 anos da Revolução Russa PD_ESPECIAL | Page 166
A República de Weimar se consolidou sob a liderança refor-
mista do Partido Social-Democrata, ao mesmo tempo em que os
mencheviques e socialistas revolucionários russos perdiam o
poder com a dissolução da Assembleia Constituinte. Se a derrota
dos espartaquistas na Alemanha enfraqueceu o governo bolchevi-
que, a frágil República de Weimar ganharia força se, na Rússia, a
Assembleia Constituinte tivesse iniciado um processo de constru-
ção de uma democracia social. Ao longo de 1917 e 1918, os dois
países – Rússia e Alemanha – viviam processos semelhantes de
convulsão social e avanço dos partidos socialistas, que poderiam
ter evoluído para repúblicas democráticas e reformistas ou para
governos socialistas autoritários no estilo bolchevique.
Diante da encruzilhada histórica, cada país terminou esco-
lhendo um caminho diferente que, no futuro, se transformou em
aberta rivalidade. Rivalidade que cobrou um alto preço social nos
dois países. Enquanto a dissolução da Constituinte na Rússia
levou a uma ditadura voluntarista que, mais tarde, esmagou os
opositores e críticos e massacrou os camponeses, o fracasso da
República de Weimar, na Alemanha, abriu caminho para o
nazismo. Na década de 30 do século passado, quase ao mesmo
tempo, Hitler assumiu o poder na Alemanha e Stalin implantou o
terror na União Soviética. A social-democracia voltou a se instalar
na Alemanha apenas depois da segunda guerra mundial, e o
desmonte da União Soviética, na virada da década de 90, deu
margem a um capitalismo de Estado com governo autoritário.
Se, ao contrário do movimento real da história, a Assembleia
Constituinte na Rússia tivesse formado um governo democrático e
social – aliança dos bolcheviques com os socialistas revolucioná-
rios, mencheviques e liberais – ao mesmo tempo em que a Repú-
blica de Weimar tivesse se consolidado com a liderança do Partido
Social-Democrata, o mundo seria outro. O socialismo democrático
teria emergido mais cedo nos dois países, evitando o stalinismo na
Rússia e o nazismo na Alemanha, ganhando reconhecimento e
respeitabilidade pela combinação de democracia com Estado de
Bem-Estar Social. Provavelmente, o mundo teria sido poupado da
guerra fria que dominou a geopolítica mundial em quase todo o
século 20, incluindo o “equilíbrio do terror” nuclear.
A história tem esses descompassos e descontinuidades que
refletem as circunstâncias de cada país e suas lideranças políti-
cas sempre muito desiguais.
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Sérgio C. Buarque