– Camaradas. O partido e os sóviets de operários, soldados e camponeses assumimos o poder e controlamos a Rússia. Este é o poder legítimo do proletariado que acabou com a monarquia e construirá o socialismo. Não podemos agora, simplesmente, retroceder e ceder o poder à burguesia e aos seus aliados mencheviques. Com a insurreição de outubro, nós destituímos o governo provisório dominado pelos mesmos socialistas revolucionários que agora mandam na Constituinte. Esta eleição já foi um grande equívoco. Deixar que, agora, os inimigos da revolução elaborem uma Constituição que tira o poder dos Sóviets será uma traição histórica. Proponho a imediata dissolução desta Assembleia Constituinte.
Tumulto na sala misturava aplausos e gritos de repulsa à proposta de Trotski. Quase ao seu lado, Lev Kamenev levantou da cadeira num gesto dramático, esperou que se fizesse silêncio e argumentou, com voz pausada e monótona mas convincente, contra a dissolução da Constituinte.“ Decisão tão drástica e autoritária – argumentou – é um desrespeito à maioria da população, trabalhadores e camponeses que elegeram os socialistas revolucionários e os mencheviques, além dos liberais burgueses. Nós garantimos as eleições e participamos do pleito e não podemos, agora, porque ficamos em minoria, anular tudo. O que vamos dizer ao povo russo e ao mundo?”.
Lenin ouvia os argumentos das duas tendências e acompanhava o debate em torno da decisão que definiria o futuro da revolução. Ele sabia que, com apenas 24 % dos delegados na AC, os bolcheviques não poderiam impedir a elaboração de uma Constituição que, seguramente, decidiria por um sistema parlamentar de governo com base no sufrágio universal, derrubando o poder dos sovietes. Não gostaria, contudo, de um gesto duro de simples dissolução de uma instituição que tinha sido eleita após a insurreição e com a participação do partido. Quando a discussão avançou para gritos e acusações dos beligerantes, Lenin se levantou, provocando um rumor carregado de expectativa, e disse:
– Camaradas. O camarada Trotski tem razão quando adverte para o retrocesso de uma Constituinte com maioria reformista e liberal. Mas Kamenev levantou aspectos relevantes na defesa da Assembleia onde somos minoria, é verdade, mas precisamos considerar a sua reflexão na nossa avaliação da realidade e na nossa decisão.
Fez uma pausa, olhando as caras inquietas, e concluiu:
– Vamos respeitar a Constituinte. Nossos deputados devem formar alianças com os socialistas revolucionários de esquerda e
158 Sérgio C. Buarque