100 anos da Revolução Russa PD_ESPECIAL | Page 139
O reformismo de Celso Furtado
e a Revolução de 1917
Raimundo Santos 1
C
elso Furtado, entre 1961 e janeiro de 1964, escreveu
vários textos sobre a superação do subdesenvolvimento
brasileiro que são bem expressivos da sua influência na
cena pública. Teve incidência inclusive na esfera governamental,
chegando a formular, no final de 1962, como ministro do Planeja-
mento, o Plano Trienal (1963-65) do governo de João Goulart. No
mais conhecido desses textos, “Reflexões sobre a pré-revolução
brasileira”, publicado no seu livro A pré-revolução brasileira, em
agosto de 1962, ele propõe uma estratégia de reformas graduais,
sob vigência permanente das liberdades, como único caminho
para firmar uma sociedade aberta e pluralista no Brasil. Escrito
sob influxo dos debates sobre a reconstrução econômica europeia
do segundo pós-guerra, o autor procura com ele singularizar as
condições de concretização desse reformismo democrático inter-
pelando a Revolução de 1917 e seu modelo de sociedade socialista.
O autor discute, em primeiro lugar, os princípios da estratégia
reformista, em diálogo com o marxismo, à época largamente
aceito pelos estudantes universitários a quem dirigia chama-
mento à ação política transformadora. Ele salienta três dos seus
pontos doutrinários de grande convencimento: o marxismo
denuncia a ordem social existente como uma ordem “em boa
medida” baseada na exploração do homem pelo homem, revela o
1 Autor do ensaio introdutório ao livro O marxismo político de Armênio Guedes,
Rio de Janeiro/Brasília: Contraponto/FAP, 2012.
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