100 anos da Revolução Russa PD_ESPECIAL | Page 115
mente e ia à ação: operários tomavam fábricas, camponeses
terras, soldados desertavam. Foi nesse ambiente de intensa luta
popular e revolucionária que se travou, até outubro, a luta polí-
tica que discutia principalmente se se deveria apoiar o governo
provisório ou avançar ao socialismo; dirigir a luta por uma “demo-
cracia” representativa, segundo uma Constituição liberal republi-
cana ou pela democracia direta dos sovietes.
Apesar da efervescência política, não havia um pensamento
homogêneo, nem mesmo entre os socialdemocratas. Quando Lenin
chegou à Rússia, em abril, quase todas as forças políticas propu-
nham a defesa da república liberal promulgada em fevereiro, consi-
derando que não havia forças suficientes para avançar rumo ao
socialismo. Os próprios bolcheviques, entre eles Lev Borissovitch
Kamenev (1883-1936) e Stalin (Josef Vissarionovitch Djugashvili –
1878-1953), defendiam, pelo jornal Pravda, que a guerra deveria
continuar, como defesa contra o imperialismo alemão. 9
Ao chegar do exílio e apresentar suas Teses de Abril, Lenin
defendeu que as questões da paz, da terra e do pão, fundamentais
para o povo, não poderiam ser resolvidas pelo governo burguês,
que as tarefas democráticas da revolução só poderiam ser resolvi-
das pelo socialismo. Em sua chegada à estação Finlândia, ainda
na plataforma do vagão, Lenin discursou: “O povo necessita de
paz; o povo necessita de pão; o povo necessita de terra. E eles lhe
dão guerra, fome em vez de pão e deixam a terra aos latifundiá-
rios. Devemos lutar por uma revolução social, lutar até o fim, até
a vitória completa do proletariado”. 10
Deste momento até a revolução de outubro, Lenin travou uma
luta, às vezes muito dura, contra aqueles – inclusive no comitê
central bolchevique – que consideravam a revolução socialista
uma aventura. Não era admissível, dizia Lenin, confiar no governo
provisório e apoiá-lo; era preciso preparar a insurreição, denun-
ciar alianças espúrias, transformar a guerra imperialista em
guerra civil. E aos poucos foi ganhando a maioria dos bolchevi-
ques para suas posições, tendo o apoio dos socialistas revolucio-
nários de esquerda e dos anarquistas.
9 BROUÉ, Pierre. O partido bolchevique. Tradução de Paula Maffei e Ricardo Alves.
São Paulo: Sundermann, 2014, p. 83.
10 Cf. FONTANA, Josep. El siglo de la revolución. Una historia del mundo desde
1914. Barcelona, Crítica, 2017, p. 85.
1917-2017 – Cem anos que abalaram o mundo
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