100 anos da Revolução Russa PD_ESPECIAL | Page 102
Aparentemente, esses foram os erros de Gorbachëv, mas isso
não passa de uma simplificação de tudo o que ocorreu. Velhos
camaradas culpam o líder soviético, mas há muitas interpreta-
ções sobre o que houve de fato. Entre os comunistas, como sempre,
as divergências são profundas.
Os trotskistas veem a restauração capitalista no Leste Europeu
como a confirmação das teses de Leon Trotsky, o líder bolchevique
assassinado por ordem de Stálin durante o exílio no México e que
acaba de ter sua memória resgatada pelo fabuloso romance O homem
que amava os cachorros, do escritor cubano Leonardo Padura.
Os maoístas, mais pragmáticos, corroboram a velha tese
chinesa de que Kruschev havia traído a revolução ao denunciar o
culto á personalidade e os crimes de Stálin. Sobre isso é muito
interessante o relato de Henry Kissinger no livro Sobre a China,
no qual mostra como a liderança do PCCh se aliou aos Estados
Unidos para derrotar a União Soviética, em plena guerra fria.
Os antigos eurocomunistas, críticos do modelo soviético,
aprofundaram suas análises e tentam encontrar um caminho
para um projeto transformador assentado na ampliação da
democracia, porém, cada vez mais distante do que poderia se
chamar de socialismo.
Os comunistas viraram uma espécie de alma penada, com um
enorme fardo histórico sobre os ombros. A perplexidade de Lúcio
Magri, da esquerda do PCI, diante da dissolução da URSS e do
próprio partido italiano, muito bem retratada na sua obra auto-
biográfica, intitulada O Alfaiate de Ulm, levou o líder do grupo Il
Manifesto à depressão e ao suicídio.
Aqui no Brasil, o colapso da União Soviética implodiu o PCB,
que já vinha de duas crises na década de 1980, uma provocada
pela saída de Luiz Carlos Prestes e outra pela dissidência do
grupo renovador de Armênio Guedes.
Como dirigente do partido, diante da situação que se colocava,
tinha minhas próprias opiniões, mas fui muito influenciado por
duas pessoas próximas: minha mãe, Aparecida Azedo, ex-campo-
nesa que virou pintora naïf, e Salomão Malina, o então secretá-
rio-geral do PCB, com quem trabalhava diretamente.
Ao chegar de Moscou, em conversa com a minha mãe, relatei-
lhe o que estava acontecendo e, para minha surpresa, a antiga
boia fria e operária têxtil, que havia sobrevivido ao Massacre de
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Luiz Carlos Azedo